por Márcio Carvalho
1) Você recentemente lançou o projeto Mapa Vocal, que consiste em uma única aula de canto popular para um grupo reduzido de alunos. Como o projeto tem funcionado na prática?
Melhor do que a encomenda. Eu imaginava algo puramente demonstrativo: faço um breve aquecimento, demonstrando meu trabalho técnico, cada cantor canta uma ou duas músicas. Aponto o que percebi e dou sugestões para que ele continue ou comece seus estudos, comigo ou com outros profissionais indicados, ou para que investigue melhor sua saúde vocal. Mas algumas pessoas relatam aproveitamento acima do esperado sobre essa aula e algumas delas repetiram algumas vezes. Atualmente o Mapa Vocal está suspenso, pois ele gera muita demanda de continuidade e estou sem horários vagos até agosto, a não ser para aulas em grupo. As inscrições para os grupos estão abertas e quem estiver interessado em aulas individuais também deve fazer contato agora, pois há uma pequena lista de espera.
Ao invés do Mapa Vocal, está funcionando agora o 6 x 8, desdobramento do 4 x 4 que criei no ano passado. Ambos são cursos de curta duração, em grupos pequenos (6 cantores x 8 aulas). Comecei com o 4 x 4, que teve duas ou três edições bem sucedidas, mas os próprios participantes, em sua avaliação final, me apontaram que havia um interesse maior por cursos um pouco mais longos. Estou abrindo duas novas turmas do 6 x 8, uma começando dia 30 de junho no Rio e outra dia 5 de julho em Niterói.
2) Sendo o Mapa Vocal e o 6x8 cursos em grupo, como você lida com as possíveis diferenças de expectativa e de amadurecimento técnico entre os alunos?
Os grupos em que ensino técnica vocal são sempre pequenos, o que me permite dar atenção individual a cada um, e os alunos dos grupos têm direito a fazer aulas individuais avulsas durante o curso e nos três meses seguintes. Fora dos grupos, não recebo cantores para aulas avulsas, a não ser para uma aula inicial de avaliação e encaminhamento. E o mais importante para mim: os exercícios -- tanto de técnica como de palco, repertório e microfone -- são propostos ao grupo mas sua realização é individual. Cada um pode "puxar" um exercício de acordo com seu aproveitamento. Costumo estimular as pessoas a aproveitarem a oportunidade que cada exercício oferece para que realmente se trabalhem. Cada um de nós tem pontos fortes e pontos fracos e pode escolher fazer um curso se escondendo atrás de seus pontos fortes ou de fato aproveitando a oportunidade para se desenvolver onde se sente inseguro.
3) As diferentes demandas que um aluno pode apresentar implicam em uma preparação vocal diferenciada ou o que determina a forma pela qual o trabalho será conduzido é sempre a condição técnica?
Se o aluno chega com questões relacionadas à saúde vocal, é essa a minha prioridade, sem muito espaço para que ele queira outra coisa. Não aceito trabalhar com vozes não saudáveis, quando desconfio de algo, indico um otorrino da minha confiança para fazer um exame e não recebo a pessoa sem um laudo positivo. Se houver algum problema, ela vai para tratamento e eu só trabalho com ela quando tiver alta ou então se for autorizada e supervisionada pelos profissionais da área médica que a estão tratando. Mesmo que a voz pareça saudável, ao longo do seu tempo comigo todos os alunos vão sendo esclarecidos, sugestionados e, finalmente, furiosamente pressionados a fazer um exame de cordas vocais de vez em quando (pelo menos de dois em dois anos). E mesmo que o exame dê tudo ok, se há esforço vocal, essa é a prioridade. Não vou proibir o cantor de cantar rock, por exemplo, mas vou monitorar sua voz o tempo todo pra que se prepare pra esportes radicais vocais, se é essa sua escolha. Um cantor que canta com esforço quase nunca está totalmente bem. Sempre sente um pouco de cansaço, as crises de rouquidão, ainda que leves, se sucedem, e isso se torna o eterno assunto. Fora a questão saúde e prevenção, finalmente, SIM, as demandas estéticas do aluno é que determinam que tipo de preparação técnica será feita e não o contrário.
4) Como o fator "auto-estima" interfere no aprendizado de um aluno de canto? Que tipo de atenção o preparador vocal deve ter com o aluno retraído? E com o aluno "estrela"?
O aspecto emocional é um longo capítulo na aula de canto. Resumidamente, deixo claro que o professor de canto não é terapeuta e a aula de canto não é terapia. Pode dar prazer e a gente lida com emoção e interpretação, mas a emoção e a arte existiram antes da psicologia e há técnicas artísticas para lidar com a emoção. A falta de auto-estima interfere em qualquer aprendizado, pois a pessoa não se sente capaz de aprender de verdade, e isso não será resolvido na aula de canto, é um caso pra analistas e psicólogos. Sou muito favorável a que o artista invista em seu autoconhecimento, amadurecimento e transformação. Fiz terapias corporais a vida inteira e atualmente estou fazendo análise. Esses processos me tornaram muito mais capaz, criativa e competente como artista, sem falar nos ganhos pessoais.
A timidez não é um problema, mas uma característica de personalidade. Muitos grandes cantores, às vezes muito expansivos no palco, são tímidos na vida social. A postura estrela dificilmente consegue comparecer na aula, que é um lugar sem glamour, bastante quotidiano, onde a gente acaba desarmado. O cantor que não tem paciência ou não dá valor a isso acaba indo embora e os que ficam, ainda que se comportem como estrelas em outros lugares, deixam isso do lado de fora da porta para fazer o trabalho.
5)"Um bom professor não vai se limitar a dizer a você "faça". Pode criar mil imagens mirabolantes sobre seu corpo, mandar você imaginar que sua mandíbula é um arame preso por um preguinho ou que sua bunda se enche de ar quando você inspira. Por incrível que pareça, isso vai ter algum efeito sobre você." (extraído do artigo "Sorvete na Testa" - Suely Mesquita).
Como você trabalha o elemento lúdico no ensino canto? Esses recursos são sempre válidos ou é o aproveitamento do aluno que determina sua medida?
Sempre é o aproveitamento do aluno que determina todas as medidas referentes à didática. Um bom professor é aquele que tem um conteúdo consistente a transmitir e que CONSEGUE transmitir esse conteúdo a cada cantor que o procura. Assim, não considero que existam recursos didáticos sempre válidos. Alguns alunos rendem muito bem com o humor, outros se dispersam ou ficam achando que a aula é inconsistente e perdem o interesse. Intuitivamente, parto de um conjunto de procedimentos que costuma dar certo com a maioria das pessoas e que visa fazer com que o cantor perceba que sei o que estou fazendo e, ao mesmo tempo, não fique intimidado ou me olhe com cerimônia. A partir das reações de cada cantor e da velocidade que consegue imprimir a seu aprendizado, vou corrigindo a abordagem, sendo mais ou menos exigente, procurando sempre estimular e tornar o processo interessante, procurando que o cantor logo perceba mudanças bacanas quando canta para outras pessoas ou quando grava. Cada cantor chega com uma necessidade, um desejo e uma expectativa. Começo escutando isso, escuto sua voz em exercícios e no repertório, procuro detectar necessidades e urgências que o próprio cantor ainda não percebeu e, juntando tudo isso, proponho um programa inicial de trabalho, que vai ser revisto, checado, modificado e ampliado periodicamente. Posso levar a aula mais para o lado técnico ou para o lado expressivo ou para pesquisa de repertório etc., dependendo do que vai acontecendo com cada um. O que de fato importa é que o cantor, além de se sentir cada vez cantando melhor, também perceba na prática como conduzir seu trabalho para a realização. Cantar bem só quando está sozinho no chuveiro é pouco para mim e para todos os cantores que me procuram. Portanto, faz parte da aula olhar em volta e achar os caminhos no mundo para sua arte e seu prazer, seja você profissional ou amador.
6) "Quanto aos processos criativos, os métodos de pesquisa artísticos são diferentes dos científicos pois, enquanto a ciência se preocupa em estabelecer verdades da maneira mais inquestionável possível, a arte admite melhor a pluralidade, a controvérsia, já que a verdade estética não precisa e não deve ser inquestionável."(extraído do artigo "Técnicas experimentais e cantores autodidatas" - Suely Mesquita).
Mesmo com o domínio dos conceitos já consagrados sobre a voz cantada e toda a técnica acumulada, você encontra ainda hoje algum espaço para experimentalismos em seus estudos pessoais sobre preparação vocal?
Há atualmente alguma proposta, vinda de qualquer profissional da área, que se possa chamar realmente de nova ?
Essa sua pergunta é muito importante. Faço duas ressalvas: primeiro que o texto diz: QUANTO AOS PROCESSOS CRIATIVOS e não QUANTO À TÉCNICA VOCAL. A ténica vocal é o lugar onde a arte e a ciência se encontram. Cada vez mais, nós, professores de canto, temos o dever de ter noções ao menos básicas sobre fisiologia da voz. Não é possível ensinar técnica de canto de forma responsável ignorando o funcionamento saudável do corpo, ignorando o grande conhecimento já acumulado sobre isso e usando somente a intuição e o talento individual. A segunda ressalva aponta para o limite do conhecimento médico e técnico atual. O professor e o cantor são obrigados à experimentação caso queiram avançar em certos campos, como os efeitos vocais usados no rock e em outros gêneros e também os "imitados" por cantores que se dedicam ao estudo da música étnica. Segundo a tradição do canto erudito (e dos professores de canto popular que foram treinados por professores de erudito, entre os quais eu me incluo), esse tipo de uso da voz, que demanda esforço, era simplesmente proibido. Hoje em dia não faz nenhum sentido eu receber na minha aula um cantor de rock e dizer a ele que está proibido de gritar. Pra mim esse seria um dos principais objetivos da lista pv agora, ainda muito frustrado: reunir as pessoas que estão no Brasil inteiro pesquisando essas emissões e informar melhor a todos sobre isso. Uma troca não somente entre cantores e professores intuitivos, como já apareceram na lista, mas também entre profissionais de outras áreas, incluindo estudos fonoaudiológicos e médicos sobre esses tipos de emissão e ouvindo professores com profunda base técnica que estejam atualmente se sentindo plenamente seguros sobre como proteger a voz dos cantores que cantam dessa maneira e, sobretudo, como ensinar com segurança um cantor a emitir esses sons. Não estou em momento algum desmerecendo os cantores e professores intuitivos. Ao contrário, eles têm sido os pioneiros e talvez sejam eles os primeiros a descobrir algo mais consistente sobre isso ou a encontrar no mundo quem já descobriu. Não tenho informação que me satisfaça a esse respeito e não apareceu nada na lista até hoje que me satisfizesse.
7)"Minhas pesquisas sobre técnica vocal para o canto popular têm se apoiado, nos últimos anos, em três tipos de saber em fase mais adiantada de sistematização: escolas de canto erudito, técnicas corporais de consciência do movimento e o saber médico sobre a fisiologia da voz (laringologia e fonoaudiologia). Sinto necessidade destes apoios para evitar ou minimizar os riscos que uma experimentação autônoma e puramente intuitiva acarretaria." (extraído do artigo "Técnicas experimentais e cantores autodidatas" - Suely Mesquita). A partir destes 03 tipos de saber, o que você apontaria como conhecimento básico e essencial para um cantor popular, especialmente se ele não tem o acompanhamento de um professor de canto?
Antes quero esclarecer que estou me referindo especificamente à técnica vocal para o canto popular. É ela que nos obriga a pesquisar, pois ainda não está tão adiantada em sua sistematização como estão os outros três tipos de saber que mencionei. É importante ainda lembrar que esse texto foi escrito há pelo menos cinco anos atrás e que, nesse período, muitos avanços foram feitos nessa sistematização, embora eu considere que ainda somos obrigados a experimentações e adaptações em vários campos, sobretudo no que diz respeito a gêneros que impõem esforço vocal ao cantor.
Agora te respondendo: toda vez que um cantor aparece na lista pv fazendo esse tipo de pergunta, logo aparece alguém que lhe manda procurar um professor de canto. Eu ia certamente dizer isso, mas você já se antecipou e colocou em sua pergunta "especialmente se ele não tem o acompanhamento de um professor de canto" (risos).
Um cantor precisa se informar sobre sua saúde vocal. Ele pode fazer isso a partir de consultas preventivas, anuais ou bi-anuais, a um otorrino de sua confiança, que possa realizar o exame chamado videolaringoscopia e, se possível, que esteja atualizado sobre voz e habituado a lidar com cantores profissionais. Os exames devem ser mais frequentes se houver qualquer alteração na emissão do som. Ele deve também procurar saber como cuidar de sua voz no quotidiano. Essa informação está cada vez mais disponível na internet. O otorrino pode orientá-lo, um professor de canto e um fonoaudiólogo também podem.
As outras duas coisas -- técnicas corporais e o saber sobre o canto erudito -- também podem beneficiar o cantor popular, mas são mais importantes para os que pretendem se dedicar ao ensino.
O que o cantor precisa de fato é aprender a fazer os sons da forma mais ampla possível e sem se machucar. Como aprender isso sem um bom professor de canto? Com muita sorte! Há pessoas que conseguem aprender ouvindo outros cantores, seja em discos e shows ou dentro de casa, quando há um bom exemplo vocal na família, mesmo que não venha de um cantor profissional. Há cantores que parecem nascer sabendo. Há cantores que aprendem bastante experimentando sozinhos, com sua própria voz, por intuição. Há cantores que aprendem boas coisas na prática, cantando na marra, em karaokês, bandas etc. Há cantores que conseguem fazer avanços com bons livros e métodos de ensino em vídeo ou cd. E há cantores que, ao fazer essas coisas, se machucam, perdem seu tempo sem avanços, desenvolvem vícios e técnicas que soam estranhamente. Eu sou uma professora de canto. Estudo muito para fazer isso. Estou ciente demais dos riscos. Por mais irreverente que eu muitas vezes possa parecer, não esperem de mim outra dica final que não seja "PROCURE UM BOM PROFESSOR DE CANTO!!" Na minha opinião, ainda é o caminho mais curto e mais barato. Mais barato do que ter um problema vocal, por exemplo.
8) Além do 6x8, há algum outro projeto seu em planejamento ou em andamento?
No momento, estou fazendo a preparação vocal do elenco do Nós do Morro, a companhia profissional de teatro do Vidigal, no Rio. Dou aulas regulares de canto e de composição popular em Niterói e no Rio e trabalho com preparação vocal de discos e shows. Tenho palestras programadas para agosto e duas novas turmas do 6x8 começando em julho, uma no Rio e outra em Niterói. Como compositora, tive o prazer de ver canções minhas gravadas recentemente por Pedro Luís e a Parede e Ney Matogrosso, Fernanda Abreu, Celso Fonseca, Kátia B. e outros artistas. Fui selecionada para o Projeto Pixinguinha, que está passando por um certo suspense, mas espero que os planos de cantar em oito cidades do Centro-Oeste em novembro se concretizem. Vou relançar em breve o CD Sexo Puro e tenho um lindo novo site em www.suelymesquita.com.br, feito pelo Alê Porto, onde espero criar uma seção especial para me comunicar com os intérpretes que procuram repertório e com o público interessado no trabalho do compositor popular. Há vários outros planos, mas como o dia só tem 24 horas e o mês só tem trinta dias, vou parar por aqui :))
(*) SUELY MESQUITA preparadora vocal, professora de canto, compositora e cantora. Assina a preparação vocal dos CDs “Astronauta Tupy” (Pedro Luís e a Parede - © 1997 Warner/Dubas), “Abracadabra” (Boato - © 1998 Warner), “Moro no Brasil” (Farofa Carioca - © 1998 Polygram), "É tudo um real" (Pedro Luís - © 1999 Warner) e outros. É co-fundadora do GEV - Grupo de Estudos da Voz do Rio de Janeiro, que se dedica especialmente a adaptar o conhecimento das escolas clássicas de canto e a abordagem científica sobre fisiologia da voz ao treinamento do cantor popular. Criou a lista de discussão preparacaovocal (http://preparacaovocal.blogspot.com), atualmente com mais de 400 membros em todo o Brasil. Como compositora, tem músicas gravadas por Fernanda Abreu, Ney Matogrosso, Pedro Luís e a Parede, 14bis, Marcela Biasi e outros artistas. Foi escolhida para encerrar o novo Projeto Pixinguinha, em novembro de 2005.