Entrevista do Dr. Paulo Pontes, conceituado otorrinolaringologista, à Revista ABCFARMA Ano 10 - 128 - volume II

Esta entrevista foi concedida em 16/04/2002 e publicada neste Blog em 15/08/05, excepcionalmente, por tratar de noções básicas de saúde vocal


VOCÊ É O DONO DE SUA VOZ

Dos primeiros balbucios do bebê até os discursos mais arrebatadores, a voz humana é o mais perfeito e complexo instrumento de comunicação do planeta. Além dos aspectos psicológicos e intelectuais envolvidos, a voz fisicamente se origina num órgão que, no adulto, tem apenas de 4 a 5 centímetros: a laringe. A maior parte das pessoas só vai se lembrar de sua laringe quando tem dor de garganta. Mas uma série de outras doenças - inclusive o câncer - pode afetar a laringe e, conseqüentemente, a voz. É preciso estar alerta aos sinais de perigo. A Revista ABCFARMA ouviu o mais respeitado especialista da otorrinolaringologia brasileira - o professor Doutor Paulo Pontes, que cuida da laringe e das cordas vocais de muitas personalidades,como o apresentador Silvio Santos. Ele diz aqui como você pode tomar conta de sua voz.

PARA QUE VOCÊ USA A SUA VOZ?


Um profissional de farmácia a utiliza, em seu trabalho, para se comunicar com a clientela. Mas, nesse caso, a voz é apenas um meio - não o trabalho propriamente dito. Cerca de 25% da população mundial utiliza a voz como instrumento de trabalho. Há também uma parcela de pessoas - uma minoria, evidentemente - que vivem de sua própria voz: cantores, atores, palestrantes. Mas a imensa maioria das pessoas não se enquadra nessas duas situações. Para a maior parte dos seres humanos, a voz é "apenas" um meio de comunicação social, um modo de nos comunicarmos com os outros. O dr. Paulo Pontes observa que é justamente entre esse contingente de pessoas que os problemas da laringe e da voz são mais negligenciados. Rouquidões persistentes - o sinal mais significativo do câncer de laringe, por exemplo -às vezes se tornam crônicas antes que o paciente procure ajuda. E aí um tempo precioso pode ter sido perdido. O Brasil tem um dos mais altos índices do mundo de câncer de laringe - uma moléstia que, aliás, está fortemente associada ao tabagismo e ao consumo de alcool, portanto pode ser evitável. Daí a realização periódica de semanas e dos dias da voz - promovidos todos os anos, alternadamente, pela Sociedade Brasileira de Laringologia e de Voz. Este ano, mais precisamente em 16 de abril, será celebrado o Dia da Voz - quando os especialistas desenvolverão uma campanha de esclarecimento quanto aos problemas vocais.

UM ÓRGÃO COMPLEXO


Como explica o dr. Paulo Pontes, a laringe é uma espécie de link entre dois aparelhos - o respiratório e o digestivo - e também pode ser influenciada por um terceiro, o neurológico. Distúrbios nessas três áreas podem causar um processo inflamatório na laringe e alterar a emissão da voz. O chamado refluxo gastrofágico - que envolve estômago e esôfago - pode causar disfonia, ou seja, rouquidão. O mesmo pode acontecer como reflexos de distúrbios do aparelho respiratório. Na área neurológica, o Mal de Parkinson pode produzir um relaxamento do tônus da laringe, afetando a voz. Enfim, o uso inadequado da aparelhagem vocal, produzindo calos vocais, também afeta a emissão de voz. Segundo o dr. Paulo Pontes, em virtude desse entroncamento da laringe entre três sistemas orgânicos completamente distintos, a otorrinolaringologia, que envolve o estudo e o tratamento da laringe, é a especialidade que maior conhecimento médico e cultural exige do profissional em toda a medicina. Os cantores operísticos, por exemplo, precisam de uma laringe absolutamente impecável - e para assegurar isso, um otorrinolaringologista precisa conhecer as nuanças da música lírica. O dr. Paulo Pontes, nem é preciso dizer, é um grande entusiasta do canto - por gosto e por exigência profissional.

O RAIO-X DA VOZ


É claro que a maioria de seus pacientes não precisa usar a voz com esse grau de perfeição. Mas mesmo para quem quase não abre a boca, uma rouquidão persistente é um sinal que sempre merece atenção. Certas laringites agudas produzem voz rouca - mas a voz volta ao normal quando cessa a infecção, no máximo duas semanas depois. Já a rouquidão que persiste após este prazo requer uma investigação. "Até há uns 15 anos - diz o dr. Pontes - a única arma de diagnóstico da laringologia era o espelhinho". Hoje, para identificar as doenças da voz, a especialidade conta com a videofibrolaringoscopia - um exame que visualiza com grande acuidade a laringe e as cordas vocais, que são duas pregas que fecham o canal laríngeo. O ar que sai dos pulmões, passando pela laringe, as faz vibrar e produzir a voz propriamente dita. Um sistema de vídeo é acoplado ao aparelho para permitir ao médico, após o término do exame, estudar as imagens por mais tempo, a fim de chegar a um diagnóstico mais preciso. Um outro recurso, a estroboscopia, possibilita aos especialistas estudar também a dinâmica das cordas vocais - como se elas estivessem paradas. Mesmo assim, ele admite: "Em 30% dos casos, nós só conseguimos obter hipóteses de diagnóstico e precisamos de exames complementares". Em todo o caso, essas novas armas de diagnóstico foram um grande avanço.
Um câncer de laringe apanhado na fase inicial tem 80% de chance de cura, sem mutilação do paciente. A rouquidão é um sinal precoce do câncer. "Essa precocidade dos sintomas é um privilégio para o paciente", comenta o dr. Paulo Pontes. O exame, embora um tanto desconfortável, é rápido e perfeitamente tolerável com o uso anestesia local por spray. O médico chama a atenção para os sintomas mais típicos das doenças da laringe:
- Rouquidão persistente
- Pigarro e tosse constantes
- A sensação de um "bolo" na garganta
A qualquer um desses sintomas, procure um especialista. Quanto mais cedo, melhor. O tratamento do câncer avançado da laringe geralmente exige a retirada do órgão - e a perda da voz natural.

FALANDO ALTO E BOM SOM


Segundo o dr. Paulo Pontes, a maior parte das pessoas ainda acha que a otorrinolaringologia é uma especialidade essencialmente cirúrgica. Mas muitas das doenças que afetam a laringe podem ser tratadas e curadas com medicamentos. Os refluxos do esôfago, por exemplo, podem ser debelados com antiácidos, antiinflamatórios e remédios pró-cinéticos. Calos das cordas vocais costumam ser dissolvidos com a reeducação da voz.
Mas o dr. Pontes adverte: Ö Tomar antiinflamatório sem orientação médica, por qualquer sintoma da laringe. "É como enxugar gelo", brinca ele.
Ö O uso indiscriminado das chamadas "pastilhas de garganta" também não deve ser estimulado. As que contêm anestésicos e aromáticos aliviam os sintomas, mas podem mascarar um problema mais grave. As pastilhas à base de antibióticos modificam a flora da laringe e não costumam atuar sobre as bactérias que realmente causam infecções - podendo causar resistências antibacterianas.

CUIDADOS


Eis alguns cuidados que são recomendados para se conservar a voz e evitar problemas nas cordas vocais ou na laringe:
- Não force a voz, seja falando ou cantando
- Não grite ou sussurre.
- Beba pelo menos oito copos de água por dia
- Evite abusar de bebidas e alimentos gelados ou ácidos
- Não fume nem abuse do álcool

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