VOCÊ É O DONO DE SUA VOZ
Dos primeiros balbucios do bebê até os discursos mais arrebatadores, a voz
humana é o mais perfeito e complexo instrumento de comunicação do planeta.
Além dos aspectos psicológicos e intelectuais envolvidos, a voz fisicamente se
origina num órgão que, no adulto, tem apenas de 4 a 5 centímetros: a laringe.
A maior parte das pessoas só vai se lembrar de sua laringe quando tem dor de
garganta. Mas uma série de outras doenças - inclusive o câncer - pode afetar a
laringe e, conseqüentemente, a voz. É preciso estar alerta aos sinais de
perigo. A Revista ABCFARMA ouviu o mais respeitado especialista da
otorrinolaringologia brasileira - o professor Doutor Paulo Pontes, que cuida
da laringe e das cordas vocais de muitas personalidades,como o apresentador
Silvio Santos. Ele diz aqui como você pode tomar conta de sua voz.
PARA QUE VOCÊ USA A SUA VOZ?
Um profissional de farmácia a utiliza, em seu trabalho, para se comunicar com
a clientela. Mas, nesse caso, a voz é apenas um meio - não o trabalho
propriamente dito. Cerca de 25% da população mundial utiliza a voz como
instrumento de trabalho. Há também uma parcela de pessoas - uma minoria,
evidentemente - que vivem de sua própria voz: cantores, atores, palestrantes.
Mas a imensa maioria das pessoas não se enquadra nessas duas situações. Para a
maior parte dos seres humanos, a voz é "apenas" um meio de comunicação social,
um modo de nos comunicarmos com os outros. O dr. Paulo Pontes observa que é
justamente entre esse contingente de pessoas que os problemas da laringe e da
voz são mais negligenciados. Rouquidões persistentes - o sinal mais
significativo do câncer de laringe, por exemplo -às vezes se tornam crônicas
antes que o paciente procure ajuda. E aí um tempo precioso pode ter sido
perdido. O Brasil tem um dos mais altos índices do mundo de câncer de laringe
- uma moléstia que, aliás, está fortemente associada ao tabagismo e ao consumo
de alcool, portanto pode ser evitável. Daí a realização periódica de semanas e
dos dias da voz - promovidos todos os anos, alternadamente, pela Sociedade
Brasileira de Laringologia e de Voz. Este ano, mais precisamente em 16 de
abril, será celebrado o Dia da Voz - quando os especialistas desenvolverão uma
campanha de esclarecimento quanto aos problemas vocais.
UM ÓRGÃO COMPLEXO
Como explica o dr. Paulo Pontes, a laringe é uma espécie de link entre dois
aparelhos - o respiratório e o digestivo - e também pode ser influenciada por
um terceiro, o neurológico. Distúrbios nessas três áreas podem causar um
processo inflamatório na laringe e alterar a emissão da voz. O chamado refluxo
gastrofágico - que envolve estômago e esôfago - pode causar disfonia, ou seja,
rouquidão. O mesmo pode acontecer como reflexos de distúrbios do aparelho
respiratório. Na área neurológica, o Mal de Parkinson pode produzir um
relaxamento do tônus da laringe, afetando a voz. Enfim, o uso inadequado da
aparelhagem vocal, produzindo calos vocais, também afeta a emissão de voz.
Segundo o dr. Paulo Pontes, em virtude desse entroncamento da laringe entre
três sistemas orgânicos completamente distintos, a otorrinolaringologia, que
envolve o estudo e o tratamento da laringe, é a especialidade que maior
conhecimento médico e cultural exige do profissional em toda a medicina. Os
cantores operísticos, por exemplo, precisam de uma laringe absolutamente
impecável - e para assegurar isso, um otorrinolaringologista precisa conhecer
as nuanças da música lírica. O dr. Paulo Pontes, nem é preciso dizer, é um
grande entusiasta do canto - por gosto e por exigência profissional.
O RAIO-X DA VOZ
É claro que a maioria de seus pacientes não precisa usar a voz com esse grau
de perfeição. Mas mesmo para quem quase não abre a boca, uma rouquidão
persistente é um sinal que sempre merece atenção. Certas laringites agudas
produzem voz rouca - mas a voz volta ao normal quando cessa a infecção, no
máximo duas semanas depois. Já a rouquidão que persiste após este prazo requer
uma investigação. "Até há uns 15 anos - diz o dr. Pontes - a única arma de
diagnóstico da laringologia era o espelhinho". Hoje, para identificar as
doenças da voz, a especialidade conta com a videofibrolaringoscopia - um exame
que visualiza com grande acuidade a laringe e as cordas vocais, que são duas
pregas que fecham o canal laríngeo. O ar que sai dos pulmões, passando pela
laringe, as faz vibrar e produzir a voz propriamente dita. Um sistema de vídeo
é acoplado ao aparelho para permitir ao médico, após o término do exame,
estudar as imagens por mais tempo, a fim de chegar a um diagnóstico mais
preciso. Um outro recurso, a estroboscopia, possibilita aos especialistas
estudar também a dinâmica das cordas vocais - como se elas estivessem paradas.
Mesmo assim, ele admite: "Em 30% dos casos, nós só conseguimos obter hipóteses
de diagnóstico e precisamos de exames complementares". Em todo o caso, essas
novas armas de diagnóstico foram um grande avanço.
Um câncer de laringe apanhado na fase inicial tem 80% de chance de cura, sem
mutilação do paciente. A rouquidão é um sinal precoce do câncer. "Essa
precocidade dos sintomas é um privilégio para o paciente", comenta o dr. Paulo
Pontes. O exame, embora um tanto desconfortável, é rápido e perfeitamente
tolerável com o uso anestesia local por spray. O médico chama a atenção para
os sintomas mais típicos das doenças da laringe:
- Rouquidão persistente
- Pigarro e tosse constantes
- A sensação de um "bolo" na garganta
A qualquer um desses sintomas, procure um especialista. Quanto mais cedo,
melhor. O tratamento do câncer avançado da laringe geralmente exige a retirada
do órgão - e a perda da voz natural.
FALANDO ALTO E BOM SOM
Segundo o dr. Paulo Pontes,
a maior parte das pessoas ainda acha que a otorrinolaringologia é uma
especialidade essencialmente cirúrgica. Mas muitas das doenças que afetam a
laringe podem ser tratadas e curadas com medicamentos. Os refluxos do esôfago,
por exemplo, podem ser debelados com antiácidos, antiinflamatórios e remédios
pró-cinéticos. Calos das cordas vocais costumam ser dissolvidos com a
reeducação da voz.
Mas o dr. Pontes adverte:
Ö Tomar antiinflamatório sem orientação médica, por qualquer sintoma da
laringe. "É como enxugar gelo", brinca ele.
Ö O uso indiscriminado das chamadas "pastilhas de garganta" também não deve
ser estimulado. As que contêm anestésicos e aromáticos aliviam os sintomas,
mas podem mascarar um problema mais grave. As pastilhas à base de antibióticos
modificam a flora da laringe e não costumam atuar sobre as bactérias que
realmente causam infecções - podendo causar resistências antibacterianas.
CUIDADOS
Eis alguns cuidados que são recomendados para se conservar a voz e evitar
problemas nas cordas vocais ou na laringe:
- Não force a voz, seja falando ou cantando
- Não grite ou sussurre.
- Beba pelo menos oito copos de água por dia
- Evite abusar de bebidas e alimentos gelados ou ácidos
- Não fume nem abuse do álcool
* * *
REVISTA ABC FARMA: http://www.abcfarma.org.br/revista/