Entrevista de CRISMARIE HACKENBERG, cantora, pianista, regente, preparadora vocal e educadora musical, ao BLOG PREPARAÇÃO VOCAL.

Crismarie fundou no ano de 2000 a empresa RioAcappella, que tem como diretriz divulgar, apoiar e produzir a música a cappella no Brasil. O Fórum RioAcappella de Música Vocal teve sua 4ª edição em Junho/2004, no Rio de Janeiro, tendo ocorrido juntamente com II Curso RioAcappella para Grupos Vocais. A RioAcappella foi indicada ao prêmio internacional CARAs 2004 (Contemporary a Cappella Recording Awards) na categoria principal "Artist of the Year" pelo realização do Festival RioAcappella em 2003.

por Márcio Carvalho


1) No encerramento de cada dia de trabalho deste último Fórum RioAcappella, podia-se observar a grande satisfação das centenas de pessoas que ali estavam participando e se confraternizando. Profissionais (e estes eram muitos) ou não, o entusiasmo que havia entre professores, cantores, alunos e curiosos era contagiante. Pode-se dizer que este é um trunfo da RioAcappella - aproximar a comunidade interessada neste tipo de cultura? Que outras contribuições da RioAcappella ao cenário da música vocal nestes últimos anos você destaca?

A nossa satisfação, depois da realização das quatro edições do Fórum RioAcappella, é enorme. Nos últimos quatro anos, a RioAcappella consolidou a criação e o fortalecimento de um pólo nacional de música vocal, na cidade do Rio de Janeiro, através de diversas ações eficientes e inéditas, diante de um quadro de escassez de eventos de ensino e de produção musical, com formatos modernos e multi-disciplinares na área de música vocal. A investigação do perfil das pessoas que formam a comunidade artística no país e a criação de um cadastro nacional de grupos vocais e corais foram fundamentais para o planejamento das ações da RioAcappella. A partir desse estudo, foi possível elaborarmos diversas ferramentas culturais integradas num festival especializado que abrangesse: shows, cursos, fóruns e site interativo para divulgação. Nosso desafio e compromisso sempre foi reunir, desde o início, num evento único, agentes de diversas áreas musicais como: profissionais (regentes, preparadores vocais, cantores profissionais, professores de canto, educadores musicais, músicos, produtores musicais, fonoaudiólogos, atores e dubladores), amadores ou iniciantes (coralistas, cantores iniciantes, amantes da música vocal) e grupos variados (corais e grupos vocais). Graças ao sucesso de público e de crítica, o Festival RioAcappella, realizado anualmente com a participação de 3.000 pessoas, se transformou num importantíssimo e pioneiro fórum nacional de expressão de idéias, técnicas educativo-musicais e intercâmbio artístico na área vocal.

2) É interessante ver que grupos vocais se formaram incentivados pela RioAcappella e alguns, inclusive, tiveram a sua estréia no próprio Fórum. Que tipo de apoio ou estrutura a RioAcappella tem condições hoje de oferecer para os grupos vocais que estão tentando se firmar?

A RioAcappella, inspirada nos moldes dos movimentos internacionais de música a cappella capitaneados pela CASA e a Primarily A Cappella, tem desenvolvido um programa de ações culturais pela música a cappella adaptado à cultura e ao jeito brasileiro. Em 2000, no seu primeiro evento, chamado " Vozes e Vocais ", reunímos 10 grupos vocais a cappella na cidade e um público de quase 350 pessoas. Motivados pela idéia bem sucedida, criamos uma série de eventos que promovessem a música vocal: o Fórum RioAcappella, o RioAcappella Show (show com vários grupos juntos), o Curso de Verão RioAcappella para grupos vocais (destinados a cantores experientes interessados em formar grupos vocais) e o Festival RioAcappella (intercâmbio de grupos vocais nacionais e internacionais). Num primeiro momento pensamos que com essas iniciativas seria fácil a elaboração de uma comunidade de grupos vocais a cappella, como existem lá fora nos EUA, Alemanha e Japão. Mas não foi bem assim. Um pouco mais a frente, percebemos que seria necessário uma boa dose de empreendedorismo de carreira por parte dos grupos e um trabalho de expansão da empresa para o mercado internacional. Por isso, criamos um selo fonográfico que pudesse escoar para o exterior o produto artístico dos grupos vocais a cappella brasileiros e planejamos realizar nos próximos anos: concursos e festivais latino-americanos, visando a integrar nessa comunidade o mercado latino. Sem nos descuidar das bases, idealizamos para o ano que vem festivais regionais de música a cappella para novos talentos e manuais práticos para interessados.

3) Em que pontos em especial você avalia que o Fórum evoluiu desde a sua primeira edição?

Acho que podemos encontrar muitos pontos de evolução no planejamento e na estrutura do evento, apesar de acreditar que sempre é possível melhorar e surpreender as pessoas com novas idéias. Mas falando do evento, optamos em manter o mesmo local (Instituto Metodista Bennett/RJ) e a mesma época do ano (Feriado de Corpus Christi) desde o primeiro evento em 2001 para criarmos uma marca e um "estado de espírito" nas pessoas que já tinham vindo. Num segundo momento, procuramos anexar patrocinadores (Prefeitura do Rio) e parceiros culturais (Teatro do Jockey/2003 e a Sala Baden Powell/2004) para ampliarmos a grade de programação de atividades e principalmente escoar a oferta de shows. Numa avaliação de benefícios, acho que vale a pena citar: ampliação de um fórum artístico de 2 dias para um festival de 9 dias; salto de 12 para 45 palestrantes no evento; simultaneidade de 2 para 4 auditórios a cada palestra; maior detalhamento de informações nas inscrições; avanço em novas formas de divulgação; programação de shows com grupos nacionais e internacionais inéditos no Rio de Janeiro.

4) Sobre o planejamento e a produção do Fórum, desde a sua 1ª edição, pode-se dizer que a cada ano tudo é sempre um desafio ou você já tem "o caminho das pedras" para a execução do evento?

O formato estrutural do primeiro evento foi inspirado em um evento dos EUA para grupos vocais, mas decidimos reformulá-lo para atender melhor à realidade brasileira. Testamos o primeiro e percebemos que o público aprovou o formato: salas temáticas, simultaneidade, pontualidade, palestrantes brasileiros e estrangeiros, assuntos inéditos, intercâmbio artístico entre grupos profissionais e amadores, entre outras coisas. Como coordenadora, posso dizer que tenho um caminho das pedras, sim. Começo a organizar o evento um ano antes e a produzi-lo realmente nos seis meses anteriores. Mas se eu tivesse que escolher o grande diferencial desse evento, diria que é o "estado de espírito". Quem já foi alguma vez, sempre diz: "...Isso aqui é a Disneylandia da música vocal...", "Parece que estamos num outro planeta, num outro universo mágico..." Concordo com todos. Passo quase todo o tempo do evento observando os rostos, as emoções, as inquietações da pessoas, e percebo a construção de um processo maravilhoso de integração humana e musical entre palestrantes, participantes e a produção. Algo que se desenvolve durante todos os dias do festival e se propaga ao longo dos dias seguintes. É realmente uma coisa muito especial que levamos pra casa e guardamos para sempre.....

5) Há algo que você deseje para os próximos Fóruns que ainda não pôde ser realizado - algum tipo de reformulação, algum recurso que ainda falte, algum palestrante em especial ...? Há alguma novidade que você já possa adiantar para o próximo ano?

O grande desafio de qualquer evento no Brasil é se manter inédito e imperdível. Se conseguirmos essas duas fórmulas todo ano teremos sempre uma boa razão para trabalhar. Acho que meu sonho e do Cylan Delgado, ainda não realizado, é produzir um evento de música vocal que atenda no mínimo 5.000 cantores a preços populares. Para isso, temos que ter um projeto cultural de inclusão de corais, grupos vocais consagrados, instituições artísticas, empresas apoiadoras, Prefeitura do Rio, etc. Como um Teatro que comporte tanta gente não existe no Rio, com certeza teríamos que escolher um local aberto com estrutura adequada....mas esses são sonhos para o futuro. Os planos e as idéias para o ano que vem já estão em andamento e como é muito cedo para divulgá-los, vão ficar guardados pra dar sorte!

6) Que novas possibilidades você pode vislumbrar com a indicação ao prêmio CARAs? Que novas portas podem se abrir?

As portas já começaram a se abrir... O CD do BR6 "Música Popular Brasileira A Cappella" chegou ao Japão e aos EUA nessa semana e recebeu críticas maravilhosas. Com certeza, ainda vamos colher muitos frutos por essa indicação, pois esse prêmio representa o reconhecimento de um trabalho original e competente feito no Brasil pela RioAcappella, sob os olhos da organização mais importante de música a cappella do mundo: CASA - The Contemporary A Cappella Society. Nossa expectativa é que, nos próximos anos, um staff de grupos brasileiros a cappella possa fazer parte ativamente do movimento a cappella mundial, que a cada dia aparece mais fortalecido. Basta notarmos a quantidade de festivais internacionais, em diversos países (EUA, Alemanha, Japão, Inglaterra, Itália, Bélgica), que buscam a revelação de novos grupos e atualmente criam um ótimo ambiente de intercâmbio para grupos vocais da América do Sul, Ásia e Austrália.

Comentários finais...

Gostaria de dizer apenas que, depois de quatro edições do Fórum RioAcappella de Música Vocal, ainda existem profissionais que não incentivam os seus alunos/coralistas a participar do evento, apesar de eles próprios estarem presentes. Ainda são muitos, mas cada vez mais eles estão em número menor, pois a cada ano a quantidade de cantores amadores aumenta. Na verdade, fiquei um pouco surpresa com isso, pois nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Como eventos para profissionais que trabalham com a voz não são novidade no Brasil, o Fórum foi concebido tendo como um dos objetivos principais: atender a um público eclético, carente de experiência e conhecimento musical. Dessa forma, criamos um evento onde qualquer pessoa pudesse vivenciar novas emoções - diferentes daquelas dos tradicionais encontros de coros e congressos de música -, através de palestras e atividades artísticas ministradas por regentes e professores, num congrassamento de idéias e atividades artísticas renovadas e muitas vezes de vanguarda. Este congrassamento, que é a força propulsora de qualquer movimento cultural e, no caso, um dos fomentos à música vocal, só faz sentido com a presença do cantor amador, pois um movimento de novos rumos e crescimento do canto coral sem a participação desta maioria, terá muita dificuldade de se estabelecer. Vou ser uma pessoa mais feliz quando todos os regentes entenderem que um cantor que participa de um evento como o Fórum RioAcappella volta para seus coros mais capacitado, com a "cabeça mais aberta" e mais estimulado a investir no seu grupo e na qualidade da música vocal no Brasil.