por Márcio Carvalho
1) Os cantores de coro e de grupos vocais são, em geral, muito disponíveis em testemunhar o prazer que têm em cantar em grupo. Por outro lado, eventualmente, encontramos pessoas que pensam que o cantor de coral é aquele que ainda não está pronto para um trabalho solo. Além disso, alguns cantores chegam a manifestar receio de que a técnica vocal utilizada para o coro possa interferir na técnica já assimilada individualmente. Existe algum ponto que se possa considerar pertinente nesse tipo de pensamento?
Eu acho que "a técnica do coro atrapalha o trabalho individual" é bobagem. Jamais. O que não se pode fazer é cantar dentro do seu naipe como um solista, e, assim, não timbrar. Ou o contrário, o cara que vai cantar solo e canta meio neutro, como se estivesse dentro de um naipe. Cada coisa é uma coisa. O cara pra cantar no coro não pode solar e nem se esconder atrás de outro cantor do naipe "porque o outro canta melhor do que ele". Cada naipe tem uns 02 ou 03 que puxam o coro, mas... timbrar não é se esconder. Você tem que estar pronto para, por exemplo, se acontecer o absurdo de faltarem 03 ou 04 do naipe, ser aquele que vai "segurar"... não é solo, mas você não vai poder se esconder. Misturar sem se esconder e, também, sem sobressair como solo. No caso do cantor que canta em coro, em grupo vocal e solo, pode, eventualmente, haver algum tipo de problema nesse sentido. Mas isso não é uma regra.
Tem gente que tem carreira solo e gosta muito de cantar em coro. Kaleba Vilela, por exemplo, é professor, cantor, faz shows solo e nunca deixou de cantar no Coral da Pró-Arte. Ele dizia, quando já estava no Coral do Rio, que cantava há muitos anos no Coral da Pró-Arte e que adorava cantar lá, com Carlos Alberto Figueiredo, que o repertório era ótimo... e ele fez uma carreira com esse Coro... viajaram pra Nova York, gravaram disco, eu acho, e fizeram vários shows.
Por outro lado, existe o movimento dos grupos vocais, como no Rio, o RioAcappella, do qual faço parte, e existe um movimento amplo no Brasil de canto coral. Já soube de regentes que não incentivariam seus coralistas a, por exemplo, virem ao Rio para participar dos fóruns do Rio Acappella porque há essa tendência natural dos melhores coralistas saírem do coro para formar grupos vocais. Comigo foi meio assim... eu cantava em coro, entrei no coro profissional e, depois, fui para grupo vocal. Comecei com 03 ou 04 grupos vocais ao mesmo tempo e fui selecionando até ficar em 01 só.
Existe também o cantor de coral, que vai pra um grupo vocal e, depois, torna-se um cantor solo.
Então, esses caminhos existem, mas não há uma regra... são casos.
Mas existe essa questão do movimento de grupos vocais "atrapalhar" um pouco o movimento dos coros... o que é um caminho natural, porque o cara não deixa de ter razão quando diz: "Esse movimento esvazia o meu.... estou perdendo os meus melhores coralistas".
2) Em sua oficina de técnica vocal para canto coral, você diz que: "Cada voz carrega consigo um universo próprio e o som do coral é o resultado da soma e da mistura desses universos sonoros. Saber somar sem exagerar e saber misturar sem se anular são os grandes desafios para os cantores no mundo coral."
No grupo, que fatores podem facilitar e quais podem dificultar o alcance da melhor mistura vocal possível?
O cantor tem que cantar no naipe e tem que timbrar. Mas ele não pode se esconder e nem pode sobressair demais a ponto da sua voz ser ouvida o tempo inteiro num coral de 30 pessoas.
Mas também você não pode ficar naquela: "Hoje eu estou com dor de garganta... vou cantar baixinho...". Se for num coro, com naipe de cinco ou seis, você pode até fazer isso sem ser tão notado. Você tem que saber que a sua ausência vai enfraquecer o coro de alguma maneira... mas passa. Num grupo vocal, sendo só você no seu naipe, por exemplo, você já não pode fazer isso... se for show solo, não tem jeito, você cancela o show. Eu já fiz um show com um grupo vocal no qual estava afônico, não podia cantar as notas e, então, fiz percussão vocal... tinha que fazer o show, fiz assim. Ficaram 02 percussionistas e uma voz a menos... o arranjo ficou capenga, mas teve que ser assim... se fosse show solo, não poderia fazer. Se fosso coro, eu faria mímica.
Agora, cada coralista tem que saber que ele é importante para o coro. A questão da mistura vocal começa em uniformizar... cada pessoa tem um timbre, uma voz. Mas tem coisas que você pode trabalhar. Fôrmas, por exemplo. Se um faz "Ah" totalmente vertical e outro totalmente aberto, chega-se a um meio termo. Eu sei que tem a questão das peculiaridades físicas, mas deve haver um parâmetro para que se tenha um som mais homogêneo. A partir de uma fôrma "igual" para todos, o que acontece? A afinação pode ficar mais parecida, os batimentos de timbre tendem a diminuir porque eles vão estar cantando mais ou menos do mesmo jeito e, assim, claro, vão conseguir usar a dinâmica juntos, usar uma técnica parecida de apoio ou você pode determinar uma técnica pra todo mundo, mas sabendo que você precisa trabalhar as peculiaridades também.
É saber que um vai ter problemas que o outro não vai ter, e que este, por sua vez, terá outros problemas específicos... e ir, assim, trabalhando um por um.
Tentar fazer com que todos tenham o mesmo tipo de recurso técnico...
É usar o bom senso. Não é usar a técnica pra aprisionar, tipo "a minha técnica deve ser usada por vocês 30". Não. Mas "essa técnica vai ser um parâmetro pra vocês 30" e assim vamos... cada um se adaptando, se moldando, para que possamos buscar um som de maior uniformidade possível.
3) É sempre mais interessante que se tenha pessoas diferentes atuando como regente e preparador vocal?
Eu acho que o legal de se ter duas pessoas é que você vai sempre ter uma opinião "de fora..." não é nem o fato de termos 02 opiniões não... tudo bem, 02 cabeças pensam melhor do que 01... mas há controvérsias também... eu tenho um grupo no qual somos 06 e todos mandam e obedecem... é uma zona... a gente chega num lugar, mas demora...
Então, depende de quem seja...
Depende de quem seja. Mas acho legal eu estar regendo, por exemplo, e você estar ouvindo o resultado do coro e avaliar. É bom que haja um "de fora". Por isso, eu prefiro que sejam 02 profissionais.
Agora, por outro lado, quando o regente é o preparador vocal, ele tem um poder maior sobre o coro. Ele vai poder fazer um trabalho mais pessoal, mais autoral, ter o coro mais na mão, talvez. Um exemplo disso, pra mim, é o Marconi Araújo, de Brasília, que foi palestrante do RioAcappella. Ele é preparador vocal, regente e domina vários tipos de técnica vocal. Então, ele pode fazer o coro cantar o popular ou o lírico e demonstra: "aqui acontece isso... o palato fica assim... aqui eu coloco o som mais frontal... maçã do rosto mais pra frente..." e mostra o coro praticando: "Aqui eu poderia cantar como as vozes búlgaras, por exemplo", e ele usa aquele timbre todo aberto... e o coro acompanha. Então, a pessoa que tem domínio técnico e competência pra fazer isso tudo, tem o coro na mão. Não sei até que ponto isso é bom ou ruim, mas vai ficar um trabalho mais autoral.
Mas, eu, particularmente, gosto da "bagunça", da democracia... do "quebra-pau" saudável.
4) Os grupos quase sempre sofrem com a rotatividade de seus componentes. O que se pode fazer para minimizar os efeitos da descontinuidade, preservando a motivação de novos e antigos componentes?
O trabalho tem que ser interessante pra todo mundo. Eu acho que tem a questão da democracia também. O coro tem que participar da escolha do repertório e dos profissionais com quem irá trabalhar, quando for o caso. A motivação passa por você não deixar cair no cotidiano. Deve haver sempre um atrativo. E, nisso, o regente, até como educador que ele também é, tem que tirar cartas da manga pra fazer aquilo ficar legal o tempo inteiro. Claro que a rotatividade sempre vai haver, por mais legal que esteja o trabalho para todos. O negócio é assim: quais são os objetivos do coro? "A gente quer fazer show, a gente quer viajar, participar de um encontro no mês tal, gravar disco etc..." traçar esses objetivos, tê-los na mente e conseguir realizá-los. Isso é legal pra manter o componente. Agora, para que isso aconteça, os ensaios têm que ser legais. É claro que têm horas que você vai ter que ficar passando nota, fazendo ensaio de naipe etc. O regente tem que estar aberto a isso e, como qualquer educador, ele tem um planejamento. Mas ele tem que saber que ele terá que tomar atalhos várias vezes, quando perceber: "Isso aqui não está interessante, tenho que ir por ali...", que é a mesma situação que o professor de canto vive numa aula... você está fazendo determinado exercício e sabe que não pode ficar muito tempo ali porque vai ser maçante.
Às vezes, aluno te dá uma "deixa", você já pensa em alguma outra coisa e muda toda a aula que você havia traçado... mas tem que ter esse "feeling", tem que ter esses "insights".
Eu acho que o regente é um educador musical e tem que ter essa percepção: "isso que eu estou fazendo é fundamental, mas está chato. O que eu vou fazer para mudar?".
E, mais uma vez, acho que, podendo haver mais de um profissional, melhor. Porque o regente pode ter uma coisa muito fixa na cabeça: "É isso, é isso...", e não ter ninguém pra dizer: "Por que você não experimenta de outro jeito?". Às vezes, você tem monitores nos naipes que podem dizer para o regente: "O pessoal não está gostando disso... isso não está funcionando... será que não ficaria melhor se fizéssemos assim?". É legal que haja essa troca. É diferente de você estar trabalhando sozinho.
Eu já estive em todas as funções: já substitui regente, já fui monitor de naipe e já fiz preparação vocal... então, eu sei que o monitor está ali, no naipe, e o preparador vocal está "de fora", vendo coisas que o regente, às vezes, não está vendo. Eu acho que ter esse "feedback" é bem melhor.
Dentro das possibilidades, quanto maior for a equipe, pra mim, melhor. Até porque, diversifica o ensaio. O monitor pode fazer um aquecimento vocal, propor coisas diferentes, o preparador vocal pode propor outras coisas também... quando possível, ter alguém que cuide de cena, de corpo. O ensaio fica mais dinâmico.
Isso tudo é importante, mas pode ser uma faca de 02 gumes também. Há cantores que, por exemplo, quando têm um ensaio às oito da manhã, não querem fazer vocalizes, porque acham que é bobagem e querem começar logo a cantar. Isso é um erro. Ainda mais às oito da manhã. É a mesma coisa do cara jogar futebol sem se aquecer. Ele pode se "estourar". Isso é fisicamente importante. Não é só filosoficamente importante. Pra evolução técnica acontecer, o cantor tem que dedicar o seu tempo.
Comentários finais...
Bem... tem gente que acha que a técnica vocal é uma só. Eu não concordo. Dependendo do que será cantado, existem diferenças de nuances técnicas. Então, isso vai se aplicar ao estilo de música que você canta e você tem que ter a percepção, o jogo de cintura, para poder adequar uma técnica vocal ao que você vai cantar. No coro, no grupo vocal ou solo, é a mesma coisa. Você vai cantar de um jeito pra cada situação.
Mas, no coro, o fundamental é não solar e nem se esconder atrás dos outros. É saber se misturar.
- extraído da apostila "Oficina Técnica para Canto Coral" de autoria de Deco Fiori
SOPRANOS: Talvez não seja exagero dizer que aproximadamente cinqüenta por cento do que um ouvinte leigo escuta na audição de um coral é o som produzido pelo naipe de sopranos. As notas mais agudas soam mais, por razões acústicas, além do fato de elas estarem, volta e meia, cantando a melodia da música. Então, podemos concluir que um bom naipe de sopranos é indispensável para se ter um bom coral.
Deve-se trabalhar intensamente a voz de cabeça, buscando atingir os agudos necessários para a execução do repertório do coro da maneira mais "espaçosa" possível, pensando verticalmente, tentando conseguir um espaço interno generoso, com o céu da boca e o palato mole levantados e a laringe baixa, como em um bocejo. Em alguns casos, para se conseguir uma sonoridade mais aberta e frontal, busca-se uma fôrma mais horizontal, erguendo as maçãs do rosto, na procura de um som mais "pontudo". As vozes devem ser uniformizadas, com uma passagem suave, chegando nas notas mais graves de maneira bem leve.
CONTRALTOS: Às contraltos geralmente cabe o que chamamos carinhosamente de "lixo melódico", isto é, aquela melodia pouco convencional, de difícil execução, que está lá para completar os acordes, pois não é o baixo, a melodia principal, nem a terça. É claro que isso é um exagero, mas, às vezes, vai acontecer. Propõe-se, então, um bom trabalho de percepção musical com o naipe, que o permita entender, emitir e afinar intervalos dissonantes.
As notas graves são mais "cheias" que as das sopranos, com um uso bem mais freqüente da voz de peito, que deve ser trabalhada de modo que fique bem encorpada, mas não agressiva, até porque a passagem será utilizada com freqüência e a equalização de timbre e volume é a chave para uma passagem suave e sem quebra, como vai se querer na grande maioria dos casos.
TENORES: Os tenores devem estar sempre bem preparados para as notas agudas. A tendência é "apertar" a voz, tensionando os músculos do rosto e diminuindo os espaços da boca e dos ressonadores da face. O trabalho que se deve fazer para evitar esses maus hábitos é, de início, uma forte conscientização da importância do apoio. Com o controle da coluna de ar, a busca da ressonância ficará mais fácil.
Essa busca começa com o relaxamento dos músculos do rosto, o que proporcionará as condições necessárias para se conseguir um som ao mesmo tempo "arredondado" e "pontudo", elevando palato e céu da boca, descendo laringe, mostrando os dentes superiores e subindo as maçãs do rosto, como em um sorriso. A grande quantidade de harmônicos irá garantir um som brilhante e pleno.
Se as notas forem muito agudas e se repetirem, recomenda-se, dependendo do contexto, uma mistura de voz de peito com falsete, o que, com um bom apoio, irá garantir um som leve e consistente.
BAIXOS: Se as sopranos são as mais ouvidas, os baixos são o alicerce, a viga mestra na construção do som do coral. Para isso, faz-se necessária uma emissão firme, sólida, encorpada, com ênfase também na articulação.
Exercícios de articulação que garantam uma audição clara e perfeita de linhas melódicas, que várias vezes farão um ritmo diferenciado dos demais naipes, serão bem-vindos. Essa articulação, aliada à eterna busca de espaços e harmônicos, irá ajudar na construção de um som mais "gordo". Fôrmas generosas trarão a robustez desejada a esse som.
Deco Fiori
(*) Deco Fiori é professor de canto, arranjador, preparador vocal e regente; Músico formado em Educação Artística; De sua experiência profissional, destacamos: participou em 1988 do Coral do Rio, sob a regência de Marcos Leite; participou como cantor, compositor e arranjador do Grupo Vocal Vox 4; é cantor e arranjador do Grupo Vocal BR 6; trabalha como preparador vocal do Grupo Equale desde a turnê de lançamento do CD "Expresso Gil" em 2000; é diretor musical da Double Sound Estúdios e Produções; atuou como vocalista em CDs de vários artistas da MPB, como Emílio Santiago, Cidade Negra, Carlos Lyra, Daniela Mercury, Pery Ribeiro, Moraes Moreira, Erasmo Carlos, entre outros; atuou, durante a década de 1990, como vocalista da Rio Jazz Orchestra; além de uma série de participações, como cantor, em teatro e televisão.