Se analisarmos a situação atual do ensino de música no Rio de Janeiro, vamos nos deparar com um quadro significativo de evasão de alunos.
A crise econômica, infelizmente, tão conhecida de todos nós, acaba moldando o perfil do aluno das escolas de música cariocas: sai o curioso, o sujeito que encara a música como um hobby ou "terapia", e fica o profissional ou aspirante a profissional, igualmente atingido pela crise, porém, disposto a investir tempo e, principalmente, dinheiro em sua formação musical.
Esta realidade, observada sem qualquer rigor científico ou estatístico, diga-se de passagem, não se encaixa, no entanto, no universo peculiar do aluno de canto popular.
Talvez motivados pela veiculação de cantores de todos os níveis nos meios de comunicação, pela proliferação de corais em igrejas e empresas, pela moda dos karaokês e videokês, ou pelo simples fato de que quem canta seus males espanta, os alunos de canto popular não param de chegar às escolas.
De todas as idades, de todos os lugares, credos, tribos, de quase todos os níveis sócio-econômicos, eles vêm com o objetivo de aprender a cantar ou aprimorar sua técnica.
É este grupo bem heterogêneo, formado tanto por pessoas com dificuldades primárias em afinação e/ou percepção musical, quanto por cantores prontos para enfrentar o mercado de trabalho, que procura a aula de canto em grupo, seja por motivos financeiros (pois a aula em grupo acaba saindo mais em conta do que a individual) ou por um desejo de integração, de troca de experiências. Enfim, as pessoas vão literalmente "procurar sua turma".
Traçado este painel humano, podemos nos concentrar nas principais questões que envolvem a aula de canto em grupo: Como trabalhar com as diferenças de nível técnico, de individualidade de estilos e de expectativas dos alunos e como monitorar a assimilação da técnica vocal por cada um deles?
Em primeiro lugar, devemos pensar em atenuar as diferenças técnicas entre esses alunos, através de um nivelamento prévio das turmas, para que o tempo de compreensão e realização do conteúdo apresentado seja mais homogêneo e a aula transcorra fluentemente para cada participante.
Limitar o número de vagas para oito ou dez pessoas (no máximo) também pode facilitar o funcionamento do curso, pois o professor irá identificar e trabalhar mais rapidamente as dificuldades de determinados alunos em pontos específicos.
Isto posto, vejamos a estrutura de uma aula de canto em grupo, que é a mesma da aula individual (apenas com uma duração mais longa): trabalha-se primeiro relaxamento e postura, para preparar o corpo enquanto instrumento. Segue-se, trabalhando a respiração, quando serão abordadas noções de apoio, que se constituirá na base, no alicerce de toda a técnica vocal. Depois vêm os vocalises, quando toda a técnica é trabalhada repetidamente, com o professor ao piano. Busca-se, então, a compreensão e o domínio da respiração e da emissão. Por fim, chegamos à prática do repertório, da interpretação, onde o aluno irá cantar uma música, interpretá-la e, na medida do possível, aplicar os conhecimentos técnicos adquiridos e bastante exercitados durante os vocalises.
O cenário ideal para esta aula é uma boa sala, grande o suficiente para comportar tanta gente, equipada com mesa de som, amplificador, equalizador, caixas de som, reverber e microfone com pedestal, para simular o que irá se encontrar (ou não) nas casas noturnas. Deve ter ainda um piano ou teclado, um violão ou guitarra e um computador que contenha um programa que toque bases pré-gravadas, para que o professor possa variar no acompanhamento dos alunos cantores, cada um com seu estilo, tornando a aula mais dinâmica.
Dinamismo, aliás, é a palavra-chave que pode traduzir o diferencial da aula em canto em grupo em relação à aula individual. Se esta é totalmente voltada para as questões de um único aluno (que por isso irá, em princípio, "resolvê-las" muito mais rápida e eficientemente), aquela coloca o aluno em um leque riquíssimo de relações: relação com o professor, com um outro aluno quando este se encontra em evidência (cantando ou colocando uma questão), com outros alunos enquanto grupo (cantando juntos ou fazendo vocalises) e com os outros alunos enquanto platéia (o aluno experimenta cantar para um público). A vivência dessas experiências permite que o aluno da aula em grupo aprenda com o outro - aprender a ouvir com o outro, a cantar para o outro e a cantar com o outro.
Um aprendizado quase mágico, que pode ajudar a transformar um simples canário em um Músico. Uma lição para tempos tão individualistas.
Artigo escrito originalmente para a revista Backstage, transcrito com a autorização do autor.
Deco Fiori é professor de canto, arranjador e preparador vocal;
Músico formado em Educação Artística;
De sua experiência profissional, destacamos:
participou em 1988 do Coral do Rio, sob a regência de Marcos Leite;
participou como cantor, compositor e arranjador do Grupo Vocal Vox 4;
é cantor e arranjador do Grupo Vocal BR 6;
trabalha como preparador vocal do Grupo Equale desde a turnê de lançamento do CD "Expresso Gil" em 2000;
é diretor musical da Double Sound Estúdios e Produções;
atuou como vocalista em CDs de vários artistas da MPB, como Emílio Santiago, Cidade Negra, Carlos Lyra, Daniela Mercury, Pery Ribeiro, Moraes Moreira, Erasmo Carlos, entre outros;
atuou, durante a década de 1990, como vocalista da Rio Jazz Orchestra;
além de uma série de participações, como cantor, em teatro e televisão.